Ovates Bardos e Druidas - O Conhecimento - Não tenhas medo, digo





Nada é o que parece e
a Realidade é apenas Ficção Alternativa


O silêncio é sempre uma carregador de uma arma pronta a disparar. 
O silêncio nem sempre é de oiro. Por vezes, o silêncio não tem perdão.
O silêncio mata mais que más palavras. As visões sucedem-se.
Vejo a hora da chegada de um avião ao aeroporto. A aterragem aborta.
Lá dentro a visão é susto. Fotografo a paisagem deserta da minha aldeia
morta. Disse um dia que havia de fotografar o perdão ilusório de um mundo
onde os homens se abraçam como irmãos. Sonhei. Não existe. Esse mundo 
não existe. Devagar, carrego a arma silenciosa. Havia um perfume de jasmim
lá ao fundo. E pessoas a afundarem-se. Não se via ou ouvia um  barulho.


Lembro-me um dia que brincávamos na praia, eramos os seis e tu disseste
os pássaros são descendentes de deus, voam por todo o lado e não param em lado nenhum.
Devias ter seis anos, nós os "normais" ficamos espantados não percebemos o que querias dizer com aquilo, entretidos a fazer castelos na areia. Muito mais tarde soubemos ser aquela a primeira das tuas célebres frases. És o mais inteligente de nós todos. Dizíamos amiúde o tipo é mesmo brilhante e brilha em todo o lado onde passa. O Pedro nunca achou graça a que fosses melhor do que ele.

És o meu melhor amigo, o meu confidente, foste tu que eu escrevi sobre o estares sempre ao meu lado nos dias de abandono que se seguiram aos dias em que eu não sabia quem era eu. Espero que me continues a ouvir. Como tu dizes, basta colocar os headphones e comunicamos com quem queremos, deus incluído. 
Naquele tempo em que eu não sabia quem era, fiz-te o retrato, dizia-te assim:

...Talvez um dia, os homens aprendam a amar os outros homens,
a olhar vendo, a respeitar, a saber a importância de um afago.
Quero voar daqui para fora para onde uma palavra faça a diferença.
Um abraço, um carinho, um beijo. Aqui. Onde. Como. Quando.

Muitas vezes falamos sobe isso, sobre a indiferença dos homens, a crueldade, a morte e a Espitualidade. 'Tá tudo ligado, dizias tu.

os pássaros são descendentes de deus, voam por todo o lado e não param em lado nenhum.
(tristan reveur)




Quem é o teu criador, Dolores. Sabes?
Aquele que nos criou a todos. Somos a criação dele. Ele ri-se de nós todos os dias. Não tem forma de pessoa, vive escondido para não vermos.
Porquê, Dolores?
Com medo de ser morto por nós. Há milhares de anos que está escondido. Qualquer de nós o mataria. Ninguém quer o destino  que ele nos deu e engana-nos sempre, sabendo que vamos ter filhos e eles vão morrer como nós. É uma grande crueldade. Ás vezes, oiço-o, quando hiberno, já hibernei 35 vezes. Lembro-me de ele dizer: a humanidade que eu criei nunca mais aprende, tem filhos para um dia desaparecem como eles. Normalmente, restaura-os, aos humanos e nascem sempre da mesma maneira, na barriga das mulheres. Diz ainda: porque será que eles têm esta mania de se multiplicarem? 
Pois é, Dolores,se não fizéssemos filhos não havia continuação da espécie.
Achas importante: a continuação da espécie? Eu não. Acho egoísmo. Sabendo que tens filhos e saberes que o que os espera é a doença e a morte. Fatalmente irias pensar na morte do teu filho ou filhos. Acho um grade egoísmo da parte dos humanos. Os animais não sabem, os humanos sabem. Ninguém quer ver morrer um filho,só os criminosos. 
(Dolores)


Horário do Fim

morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento


Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"




Sentado olha-me como se fosse eu
Morta de cansaço pergunto sou eu
Dentro de mim fala como eu fosse
A voz afaga o fogo que me consome

O carro parado na garagem e ele lá dentro.
Fechado lá dentro
O motor a trabalhar.
Quando finalmente conseguiram abrir a porta
Ele estava morto
Morto.!

abram a porta do carro abram a porta 

Todos nós de roda, numa estuporada inércia
a não acreditar, ainda a não acreditar.
não dá não abre não abre não abre não abre
abram a porta do carro. abram a porta docarro

O rapaz andava para à frente e para trás, as mãos
presas uma na outra, esfregava-as, enquanto
dizia palavras que ninguém percebia.
não abre  qualquer coisa para partir o vidro não se consegue
para partir o  para partir para partir a  janela abre a janela
não se consegue não se consegue procura lá dentro a alavanca
é ferro rápido raápido a alavanca a alavanca tá aí depressa
depressa rápido na porta na porta o vidro não  não não não

O outro rapaz chorava, as mãos no rosto,
a raiva nos olhos, como se fosse querer
matar alguém. Outra só olhava os olhos,
como eram os olhos? Do não acreditar.
isso não dá isso não dá alavanca a  alavanca  alavanca
partiu partiu partiu já está chama o  Daniel Daniel Daniel 

o carro cá para fora para fora paara fooora paaaara fooora

pulsação pulsação pulsaaçãaaoo pulsaç pulssa pulsa ção~~ção
Mais pessoas chegam, um chama o outro,
e ele ainda lá e quando a luz incidie
no rosto belo, um rosto belo ,era como se
fosse anjo. anjo anjo anjo anjo
(dedicado ao Patrick)

pena branca a pena  pena pena pena nada a fazer nada fazzer naaada

não pode ser ser não não não não pode não pode nãooo nãaaooo
não podes não pode pode não não não podes ter feito isto não podes
não podes ter feito isto cobardolas de merda não podias ter feito isto
não podias és um bandalho um filho da puta desgraçado não podias


Vejam se ele está só a dormir.Deve estar a dormir 
vai ver se ele está a dormir vai ver vai ver está a dormir está a dormir a dormir


Quando têm de o levar, o irmão  leva-o ao colo.
não faças isso isso não faças isso não faças não  faças anda cá anda cá
É frágil. É lindo. É bom.

Os amigos continuam numa dança que ninguém 
consegue parar. Vão atrás dele. Abraçados.
vou contigo vais vou contigo vou vou vou onde está a Marta a Marta
vem comigo vem  comigo amigo amigo vem  aí o Zé  o Z vem aí
não pode ser não pode ser é é não pode não pode não acredito não não

Levo -a para casa. O estado é catatônico. Não fala, 
os olhos fixos sem ver.
não pode ser não pode ser não aconteceu não pode não pode

Já é amanhã.  Começa a ver coisas
como num filme 
anjo anjo anjo um anjo umaanjoaanjo pena pena branca
branco tudo tudo branco branco branco branco
não pode ter acontecido outra vez não pode ter acontecido


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Paz


Por todos aqueles que se dirigiam à vida, que só esperavam vida
e que, sem saber, caíram desamparados no abismo opaco da morte;
por todos aqueles que acordavam de manhã, que se alimentavam
de ilusão, invencíveis perante a sua teimosia inocente, e que, na
dobra de um instante, desprotegidos da solidão, acordados a meio
de um sonho, caíram desamparados no abismo opaco da morte;
por todos aqueles olhares que refletiam a luz do dia, montras de
segredos, rostos que lembraremos com um sorriso brando e que,
sem motivo, caíram desamparados no abismo opaco da morte;
estas palavras frágeis e inúteis, este tempo breve e insuficiente.
Existiram como nós, foram gente como nós, sentiram como nós.
Por todas as palavras que disseram, pela forma humana como as
pronunciaram, pela memória incandescente da sua voz, pelo seu
tempo de pessoas, estas palavras incapazes, este tempo incapaz
e o caminho x ou y que escolhemos para segui-los.


José Luís Peixoto, inédito




e não há palavras que cantem o silêncio

Sou lixo tóxico
eram palavras a sair gritos a correr em filas de ambulâncias água sem fundo em dia de noite quente e viva vivas eram as cores de ser ali alguém que era eu toca o telemóvel grito rouco de boca sinistra sem fala compreendo eu estou morto sei-o logo que a campainha toca ela está comigo a toda a hora.
levou-me tudo de casa. cheguei e tudo vazio. mobílias, a cama, os sofás , a televisão,
a casa vazia era só paredes. não consigo parar de pensar. resisto.
foi-se embora com o outro,
levou tudo. tudo. a cabeça a rodar.
na garagem tenho o carro, vou lá.
estava um dia de sol ou será que era inverno? conheço muito bem 
a estória. sou eu, o Patrick e estou dentro da garagem.
amanhã amanhecerá um novo dia. hão-de dar pela minha falta. a falta que ela me faz.


Fotografei Parte deste Post.


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