Espero que me ouças



Josef Sudek
Existo sem que o saiba e morrerei sem que o que o queira.  Sou intervalo entre o que sou e o que não sou, entre o que sonho e o que a vida fez de mim. Sou matéria abstrata e carnal entre coisas que são nada, sendo eu também.
(Fernando Pessoa)

Sou matéria de composto depósito de ser um dia mais do que a vida. Sou o abraço a cada passo onde as estórias extraordinárias são a coragem de confessar tudo. Um eu amo-te. Um espaço maior. Lembras os anos que passaram até aqui. Tantos. Destacada a posição de amante subo as escadas que me levam a ti. Estou a falar, em perspectiva defensiva. Fiz assim a minha vida, sempre na defensiva, sem acreditar. Aconteceu um confronto frontal, a marcação individual, o ver-te ainda assim sem vontade de acreditar.
Surpreendente a coragem que encontrei em ti. As mulheres nunca foram o meu forte. Abandonam-me sempre. O espaço é curto entre o encantamento e a desistência (delas, claro). Ponto intermitente, final de colapso. Lá está, não acreditando, não há entrega. São elas que dizem. Tu surpreendes. Amar-me assim, tantos anos. Não acreditei. Duvidei. Outra vez e mais outra vez. Muitas nuvens no horizonte, a política do erro e digo nada. Nada. E tu recuas e penso, desta vez é de vez. E voltas. Voltas sempre. Por isso mesmo. É amor. Um amor sentido. O Amor.

Esta carta,  escrevi-a ontem . Sinto saudades. Não te disse quanto arrependido estou de ter sido cruel, até ao limite da crueldade. Fui. Nessa noite dormi mal. Tinha matado alguém. Estranho. Pensei na tua morte. Pensei em dizer-te o quanto senti a tua falta. Sou um pulha. Não há mais nada que possa dizer.
Queria dizer, não consigo. Absolutamente e completamente dependente de ti. É isso. Nessa noite, senti que morri. E foi terrível. Não me atrevo a dizer que espero por ti. Nessa noite matei os dois. Matei-te a ti e a mim. Tenho plena consciência disso. E esta é a tal verdade que ninguém entendeu.
Ali, naquele dia,  houve um assassinato. Não um suicídio. Um assassinato. E fui eu que cometi esse crime horroroso e sem tamanho.

Seria muito pedir que me perdoes. Eu nunca perdoaria. Eu, sou eu. Eu não perdoaria. Não. Nunca. Espero que me ouças. Espero que compreendas que sei. Sim, eu sei. Fui vergonhosamente arrogante, doentiamente cruel, execrável. Tenho plena consciência daquilo que fiz. Arrependi-me logo após.
Não tenho como chegar até ti. Tu não deixas. Tu não queres. Acredita, compreendo-te se me desprezares. Desprezo-te, disseste-me um dia. Nessa dia, ri-me. Estou calmo. Não quero piedade, nem favores. Quero que me ames como até esse dia, se tal for possível.
Eu amo-te. Nunca te disse. Amo-te.