Cassiel -- 2007


Cassiel sabe daqueles outros tempos, a quem chamam do Antigamente: aquele reino sem fadas nem príncipes encantados, onde havia uma certa pedra filosofal, aquela treta para quem acreditava no futuro risonho, onde filhos cresciam na bem saúde e um mais bonito que o outro, ensinamento  das leis e outras tantas regras figurativas, sem qualquer interesse para gerações futuras. emoções partilhadas. Cassiel podia rir às gargalhadas. a pouco e pouco desenha a vida tal como foi.
a vida dos humanos.
e diz: - já sabia que eras tu...

no ano de  2010 existiam ainda as tecnologias de ponta, os correios via computadores, aparelhos onde os humanos podiam escrever ou falar, comunicar entre eles. tudo faz parte da História. deslocam-se em uma espécie de blindados, chamados de automóveis. a poluição espalha-se e o planeta agoniza. os humanos, uma raça inferior, começa a engolir os poluentes nas águas, nos alimentos. não percebem as doenças, nem as epidemias. os medicamentos obsoletos destroem-lhes as defesas do organismo, já por si debilitado.
no Presente Ano de 2062, Cassiel relembra na Memória dixit-3A, o Passado. Ele, em 2007.
no ano de 2007 era jornalista de televisão. tem a memória desse tempo do Passado onde era trapézio sem rede. no Presente, ele escolhe com quem anda e onde vai.

Cassiel/2007;
Enquanto olho roupas coloridas a secar em varandas e pombos a debicar migalhas de bolos secos. Enquanto devaneio, close up, shut down, log out.
Dependuro-me num rochedo e envio um e-mail. Atiro promessas de gigas aos pombos, que se riem e me pedem para lhes descarregar uma foto da internet.
Enquanto reparo em tudo, parecendo que não, atiro a placa gráfica contra um poste de alta tesão, e enquanto isso os pombos desatam-se a rir e as roupas nas varandas dançam freneticamente ao som dos Scorpions.
Tenho o focinho dum jipe a olhar para mim. Olá, encantado. Equilibro-me em cima dum calhau e aproveito para lhe enviar um e-mail. O jipe pisca-me o farol e esfrego os olhos quase sem acreditar. Já? Pisca-me o outro farol que parece um olho e finalmente os pombos aproximam-se, cercam-me, aumentam de tamanho, transformam-se. Uns parecem camelos, outros vermes e outros sacodem as asas e tentam voar.
Enquanto sinto um formigueiro nas pernas olho um anúncio do Sistema Integrado de Gestão de Óleos Usados. O jipe baixou os faróis, entra-me na boca uma asa de pombo, engasgo-me e começo a tossir. Tento fugir. A sola dos ténis cola-se no Sistema Integrado, o jipe olha-me meigamente, deve ter gostado do e-mail.
Enquanto tento beber mais um café, sem adoçante se faz favor, que mania de adoçar, o pombo-verme dá um piparote na chávena e atira-me um post com cheiro a patchouli, enquanto o pombo-camelo se ri alarvemente e o pombo-asas se esconde debaixo da mesa.
Decido mandar um e-mail ao pombo-verme, enquanto o jipe semicerra os olhos meigos e avança lentamente, engatando as mudanças, tentando subir o passeio, enquanto murmura I lov´you.
Enquanto as roupas nas varandas dançam um tango, aproveito e mando-lhes também um e-mail. Just in the case.
O jipe finalmente senta-se, timidamente, e diz-me "ai" em vez de "hi", enquanto debita um poema erótico.

Enquanto tremo de emoção, vou buscar a placa gráfica caída na beira do passeio. E quando ele repete I lov´you, vomito pedacinhos de asa de pombo, tomo um guronsan e faço shut down.
repito: amanhã estarás comigo no Paraíso



(continua)

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